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Os solícitos cuidados em favor dos seres vivos constituem a satisfação de um dos mais fortes instintos da alma infantil. Pode-se, pois, facilmente, organizar um serviço de cuidados ás plantas e, especialmente, aos animais. Nada mais eficaz para despertar uma atitude de previdência no pequerrucho que vive o seu momento presente, sem preocupações com o amanhã. Quando percebe que esses animaizinhos precisam dele e que as tenras plantas poderão secar se ele não as regar, seu amor vai coligando, com um novo liame, o instante que passa o novo dia que surge. "
Maria Montessori, Pedagogia Científica
Quem é pelo menos da época de meus filhos mais velhos lembra-se ainda de quando o primeiro bichinho virtual foi lançado, em 23 de novembro de 1996. No formato oval, a tela do eletrônico do tamanho de um chaveiro mostrava uma espécie de bochinho que completava um ciclo imitando a vida de um animal, que deveria receber higiene, alimento e carinho por intermédio de três botões. Foi um fenômeno na época. Depois deste lançamento, outras 35 versões, pelo menos, foram lançadas até hoje. Outro destes que ainda está na moda é o tal Furby. Segundo a reportagem do Jornal de Hoje de 16/11/2013, link disponível em
http://jornaldehoje.com.br/ele-fala-solta-pum-e-vira-bicho-de-estimacao/ ,
é um robô peludo que canta, solta pum, fala algumas palavras e interage com aplicativos eletrônicos.
Não deixo de pensar nas prisões domiciliares e artificiais que nossas crianças se encontram. Nossos lares, cada dia mais apertados e amontoados em edifícios sempre mais altos e com mais recursos em seus condomínios, sufocam mais e mais a liberdade de interação com a natureza. Nossos pequenos, conforme nos lembra Montessori, irritados nesses ambientes sem expressão ou significado real para seu interior, passam a matar animais, desde os pequenos, formigas, tatus, lagartas. Não conseguem conviver com plantas, arrancando suas folhas ou destruindo sua estrutura. No geral, achamos tudo muito natural.
Um texto interessante da psicóloga portuguesa Ana Durão, fala da forma com que crianças e adolescentes maltratam animais, disponível no link
Independente de questões psicológicas, genéticas ou decorrentes de maus tratos ou abusos, ( coisas tais que não tenho estudo suficiente para debater), a questão maior para mim é a falta de contato e possibilidade de amar e respeitar esses pequenos seres.
Ainda no livro Pedagogia Científica, Montessori cita "Não o tendes visto ainda, impressionado, examinando o cadáver de um passarinho caído do ninho correndo para lá e para cá, descrevendo, perguntando, sensivelmente penalizado? Entretanto, essas mesmas crianças, após um período de degeneração, podem chegar a se tornar cruéis caçadores violentos de ninhos".
Interessante como até o amor à natureza deve ser cultivado, aperfeiçoado. Entre quatro paredes, com contato exclusivo com materiais eletrônicos e artificiais, o hábito de cuidar e amar fica defasado e pode se degenerar. Aí está o perigo da falta de contato real com a natureza.
Aqui em casa, a meta é a aproximação, dentro do possível.
Durante a manhã do feriado, aproveitamos o calor para o banho de nossos três cães. Nosso próspero não deixa dúvidas quanto ao carinho e apreço ao cuidado com seus peludos. Claro que, dentro do possível, não posso permitir que ele banhe o nosso gigante São Bernardo dentro de um box de banheiro tão pequeno, por questões de segurança. Mas nosso casal de hounds permite esse contato.
Depois da primeira fase de ensaboar nosso gordo amigo, o enxague, sempre tomando cuidado com as dobrinhas da pele canina. Nosso pequeno não se acanha. Agacha, verifica a limpeza. Torna a lavá-lo, fazendo muita espuma. Na verdade, é um trabalho prazeroso no qual a criança realmente se entrega. Dedica-se com amor à atividade longa e cansativa para a maioria dos adultos.
Momento delicioso em que ele olha para o cão e pergunta se a água foi em seus olhos. Esta preocupação é encantadora.
Depois de todo o processo, a parte de enxugar é a mais difícil, pois a criança não consegue controlar os movimentos do cão, que anda para se secar, chacoalhando seu pelo.
Por esta razão, deixo o cão preso num ambiente só, para facilitar o trabalho de nosso pequeno. O interessante é que, essa parte da pelagem do cão que é branca, normalmente fica bastante amarelada, com o suor e sujeira. Contudo, o banho dado pela criança é tão meticuloso que não deixa dúvidas do trabalho bem feito. Claro que tive que secá-lo novamente depois, sem que meu pequeno fosse desrespeitado. Esperei que ele estivesse cansado e perguntei gentilmente se eu poderia ajudar a secar o cão por baixo, para evitar a umidade.
Um outro momento da manhã foi o cuidado com os felinos. Primeiro, a lavagem dos potes de ração e de água, esfregando com esponja, para evitar a sujeira e depósito de ovos de pernilongos e outros insetos.
Depois de devidamente lavado e enxaguado, o pote recebeu a água dos gatinhos.
Tudo lavado, nosso pequeno leva os potes até a área onde ficam os pertences dos gatos. Ele acaricia os peludos felinos dizendo, todo orgulhoso, que a água está limpinha e a ração nova.
E como não permitir essa interação? Essa felicidade em seu rosto por se sentir útil? O ronronar do felino, acariciando suas pernas e beijando seu rostinho? Não existe recompensa maior para meu pequeno Próspero, do que a satisfação pessoal, não há premiação ou palavra de incentivo que compre a certeza do dever cumprido com amor, de poder cuidar de um pedacinho da natureza, de interagir com animais puros, amorosos e que realmente necessitam do amor e do cuidado desse pequeno e importante Próspero!