sábado, 12 de julho de 2014

As Preferências da garotada - Até que ponto as escolhas de seus heróis e personagens são livres de manipulação?

Olá, pessoal...

Faz um tempinho... Melhor...Um tempão que não me dedico ao blog nem a escrever.

Me permiti dar férias às atividades dos pequenos. Continuamos com coisas simples, que eles costumam fazer sozinhos. Mas nada realmente diferenciado ou dirigido.
Então, depois de algum tempo assistindo televisão de maneira investigativa (todos sabem que mulher adora ver pelo em ovo, não?), me veio à mente uma questão que me fez escrever novamente.

Em tempo de férias, acabei me rendendo alguns dias à televisão. Acabei escolhendo um determinado canal de tv fechada, pelo simples fato de não exibir propagandas de produtos. Apenas chamadas para os itens da programação do canal.
Depois de um certo tempo, passei a me questionar acerca de toda essa questão de marketing por trás da criação de um personagem, que, após um certo tempo, acaba marcando o crescimento de nossos pequenos. Vira a sua personagem favorita, o herói dos sonhos, aparece nas camisetas, lancheiras, canetas, pacotes de biscoito, sucos. Enfim, por todos os lados.
Lembro-me muito bem dos temas em moda na minha infância. A própria Xuxa fez parte da vida de muitos, com roupas, sapatos e brinquedos. Pica Pau, Tom & Jerry, Fofão e ató o charmoso Toppo Giggio. Mas a carga de informação dessa época era anos luz diferente da de hoje. Tevê era coisa de última opção. As crianças brincavam no quintal, na rua. Mas isto foi outra época, é claro e não é o meu foco.

Se analisarmos o processo da formação da imagem da personagem, deve começar logo cedo, quando o criador a inventa. Não entendo nada de publicidade. De repente, pode ser apenas uma criação mesmo do autor. Pode ser também, um atendimento às necessidades da produtora. Uma personagem específica, para vender uma ideia especifica, produtos, não sei mesmo. Não tenho embasamento além do senso comum para discorrer sobre isso. Se tem um sentido duvidoso, se a personagem tem problemas de personalidade, moral e afins, não vem ao caso. O que importa é que é realizado todo um trabalho de marketing pré lançamento do filme, série ou desenho e, quando menos esperamos, aquilo já impregnou a cabeça das crianças. Uma piscadela nossa e "PUFF"! Lá estão sendo vendidas miniaturas em redes de fast food, os brinquedos das personagens estão em todos os comerviais e todo o material escolar vem recheado dessas estampas. Fica muito difícil dissuadir a criançada.

Além disso, notei que existe, neste determinado canal, todo um falso slogan de que a criança "pode ser quem ela quiser". Claro, que neste mesmo slogan, existem DUAS possibilidades...um pirata ou uma princesa. Fascinante. Seu filho pode ser quem ele quiser... OU um OU outro. Tudo bem para nós? E para as crianças?

Depois de um certo tempo, outra propaganda começou a ser veiculada, onde várias personagens do outro canal do sistema (da versão para os mais velhos ou "teens") aparecem dizendo COMO a criança pode ser uma princesa. Quais são as atitudes que tornam a criança uma princesa. O engraçado, meus caros, é que cada uma das atrizes que aparece dando os seus "depoimentos" tem a feição muito, mas muito parecida MESMO com uma das princesas da logomarca.

Então...me toquei que eu mesma acabei dando a maior corda para o meu pequeno Próspero Caio, que ama os piratas. Inclusive tem uma baita atividade aqui no blog. E fiquei me questionando: Como é o único canal que eu ainda "engulo" de televisão, é um canal que ele assiste. Mesmo que raríssimo tempo diário. Sou contra criança em frente à telinha.
Mas se...mesmo em tão pouco tempo, ele passou a ter essa predileção imensa pelo tema, fico imaginando como fica a cabeça da criança que assiste vários canais e filmes por mais tempo.


Agora...algumas perguntas cruciais: QUEM decide o gosto de nossos filhos? Quem é que está decidindo as suas preferências? Aquilo de que se lembrarão quando forem mais velhos? Que fez parte da sua infância?
As nossas crianças conseguirão sonhar, criar, fantasiar sem toda essa parafernalha de nomes ditados no meio? Ou só terão a capacidade tolhida, recolhendo suas brincadeiras fantasiosas às personagens que são rigorosamente "marteladas" em suas mentes diariamente?
Até que ponto, nós pais, participamos dessas decisões? Do que é apropriado para a idade deles? Ou quem nossos filhos terão como ídolo, quem eles admirarão, respeitarão e imitarão?


Sinto que não cabe a mim escolher quem meus filhos respeitam e admirarm, em quem eles se espelham, pois são indivíduos com desejos, vontades e gostos próprios e, cedo ou tarde, passarão a decidir estas coisas sozinhos. Mas nesta fase da vida, qualquer interferência exterior, seja da família, meios sociais onde a criança está inserida, escola, tevê, sempre acabam exercendo uma forte influência nessas preferencias iniciais da criança. Até que ela decida o que realmente preserva e o que muda em sua caminhada.
Por esta razão, não consigo aceitar, que uma rede de executivos, marketeiros e publicitários decidam como estas questões se darão na vida dos pequenos. Muito menos o que eles PODEM ser, as OPÇÕES que eles podem escolher.

O Universo é ricamente vasto. O nosso mundo já é um emaranhado de possíveis explorações para nós. O número de possibilidades na vida de um ser humano, desde seus pequenos passos...é ILIMITADO. Cabe ao ser, pequenino e todo aberto ao mundo, decidir o seu caminho. Pode escolher sim, como herói, o pirata. Mas pode escolher sim, como herói, o artesão marceneiro que lida com sua obra de forma meticulosa, ou o médico que salva vidas todos os dias, o bombeiro ou o policial que nos protege, a dona de casa ou a costureira, a enfermeira. E mais? Um herói diferente, talvez. Inventado. Que eu não conheço e nem vocês. Algo que a fantástica capacidade humana de criar de nossos filhos possa fazer. talvez para mudar o mundo, para dar uma grande contribuição na história da humanidade. Por que não? Temos sim que incentivar que existam OUTRAS possibilidades, que ainda não criamos, que ainda não inventamos.


Por hora, sinto apenas um certo receio. O receio de que por algum tempo meus pequenos ainda não sofrerão essas influências. Mas que logo, ao sairem de casa, irem para a escola, sejam bombardeados. Um receio tímido ainda, pois a confiança na capacidade de livre escolha deles permanece. Mas mesmo tímido, o receio num mundo cada vez mais voltado ao produto, à limitação de escolhas, ao direcionamento das pessoas....AH esse medo tímido ainda existe. Aliado a uma ponta de esperança. Que as pessoas abram os olhos, que a realidade possa ser questionada e que possamos ser sempre livres para criarmos, sonharmos e sermos quem realmente quisermos.

Camila Martins


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